sábado, 19 de dezembro de 2009

Serie de perguntas e respostas n62

916 O egoísmo, longe de diminuir, aumenta com a civilização, que
parece excitá-lo e mantê-lo; como a causa poderá destruir o efeito?
– Quanto maior o mal, mais se torna horrível. Será preciso que o egoísmo
cause muito mal para fazer compreender a necessidade de extingui-lo.
Quando os homens tiverem se libertado do egoísmo que os domina, viverão
como irmãos, não se fazendo nenhum mal, ajudando-se mutuamente
pelo sentimento natural da solidariedade; então o forte será o apoio e não
opressor do fraco, e não se verão mais homens desprovidos do indispensável
para viver, porque todos praticarão a lei da justiça. É o reino do bem
que os Espíritos estão encarregados de preparar. (Veja a questão 784.)

917 Qual o meio de destruir o egoísmo?
– De todas as imperfeições humanas, a mais difícil de extinguir é o
egoísmo, porque se liga à influência da matéria da qual o homem, ainda
muito próximo de sua origem, não se pode libertar. Tudo concorre para
manter essa influência: suas leis, sua organização social, sua educação.
O egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a
material, e principalmente com a compreensão que o Espiritismo vos dá
do futuro real, e não desnaturado pelas ficções alegóricas. O Espiritismo
bem compreendido, quando estiver identificado com os costumes e as
crenças, transformará os hábitos, os usos, as relações sociais. O egoísmo
está fundado sobre a importância da personalidade; portanto, o Espiritismo
bem compreendido, repito, mostra as coisas de tão alto que o
sentimento da personalidade desaparece, de alguma forma, perante a imensidão.
Ao destruir essa importância, ou pelo menos ao fazer vê-la como é,
combate necessariamente o egoísmo.
É o choque que o homem experimenta do egoísmo dos outros que o
torna freqüentemente egoísta por si mesmo, porque ele sente a necessidade
de se colocar na defensiva. Ao ver que os outros pensam só em si
mesmos e não nos demais, é conduzido a se ocupar de si mais do que
dos outros. Que o princípio da caridade e da fraternidade seja a base das
instituições sociais, das relações legais de povo para povo e de homem
para homem, e o homem pensará menos em sua pessoa quando vir que
outros pensam nisso; ele sofrerá a influência moralizadora do exemplo e
do contato. Em face da atual intensidade do egoísmo humano, é preciso
uma verdadeira virtude para se desprender de sua personalidade em favor
dos outros, que freqüentemente não sabem agradecer. É principalmente
para os que possuem essa virtude que o reino dos céus está aberto; é
especialmente para eles que está reservada a felicidade dos eleitos, porque
eu vos digo em verdade que, no dia da justiça, quem tiver apenas
pensado em si mesmo será colocado de lado e sofrerá no seu abandono.
(Veja a questão 785.)
Fénelon

CARACTERÍSTICAS DO HOMEM DE BEM
918 Por que sinais pode-se reconhecer num homem o progresso
real que deve elevar seu Espírito na hierarquia espírita?
– O Espírito prova sua elevação quando todos os atos de sua vida são
a prática da lei de Deus e quando compreende por antecipação a vida
espiritual.

CONHECIMENTO DE SI MESMO
919 Qual o meio prático mais eficaz para se melhorar nesta vida
e resistir aos arrastamentos do mal?
– Um sábio da Antiguidade vos disse: “Conhece-te a ti mesmo”.

919 a Concebemos toda sabedoria desse ensinamento, mas a
dificuldade está precisamente em conhecer-se a si mesmo; qual é o
meio de conseguir isso?
– Fazei o que eu fazia quando estava na Terra: no fim do dia, interrogava
minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava
se não havia faltado com o dever, se ninguém tinha do que se queixar de
mim. Foi assim que consegui me conhecer e ver o que havia reformado
em mim. Aquele que, a cada noite, se lembrasse de todas as suas ações
do dia e se perguntasse o que fez de bom ou de mau, orando a Deus e ao
seu anjo de guarda para esclarecê-lo, adquiriria uma grande força para se
aperfeiçoar porque, acreditai em mim, Deus o assistiria. Interrogai-vos sobre
essas questões e perguntai o que fizestes e com que objetivo agistes
em determinada circunstância, se fizestes qualquer coisa que censuraríeis
em outras pessoas, se fizestes uma ação que não ousaríeis confessar.
Perguntai-vos ainda isso: se agradasse a Deus me chamar nesse momento,
teria eu, ao entrar no mundo dos Espíritos, onde nada é oculto, o que
temer diante de alguém? Examinai o que podeis ter feito contra Deus,
depois contra vosso próximo e, por fim, contra vós mesmos. As respostas
serão um repouso para vossa consciência ou a indicação de um mal que
é preciso curar.
O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do melhoramento
individual. Mas, direis, como proceder a esse julgamento? Não se tem a
ilusão do amor-próprio que ameniza as faltas e as desculpa? O avaro acredita
ser simplesmente econômico e previdente; o orgulhoso acredita
somente ter dignidade. Isso não deixa de ser verdade, mas tendes um
meio de controle que não pode vos enganar. Quando estiverdes indecisos
sobre o valor de uma de vossas ações, perguntai-vos como a qualificaríeis
se fosse feita por outra pessoa; se a censurais nos outros, não poderá ser
mais legítima em vós, porque Deus não tem duas medidas para a justiça.
Procurai, assim, saber o que os outros pensam, e não negligencieis a
opinião dos opositores, porque estes não têm nenhum interesse em dissimular
a verdade e, muitas vezes, Deus os coloca ao vosso lado como um
espelho, para vos advertir com mais franqueza do que faria um amigo.
Que aquele que tem a vontade séria de se melhorar sonde sua consciência,
a fim de arrancar de si as más tendências, como arranca as más ervas
de seu jardim. Que faça o balanço de sua jornada moral, como o mercador
faz a de suas perdas e lucros, e eu vos asseguro que isso resultará em
seu benefício. Se puder dizer a si mesmo que seu dia foi bom, pode dormir
em paz e esperar sem temor o despertar na outra vida.
Submetei à análise questões claras e precisas e não temeis multiplicá-
las: pode-se muito bem dedicar alguns minutos para conquistar uma
felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias visando a juntar o que vos
dê repouso na velhice? Esse repouso não é objeto de todos os vossos
desejos, o objetivo que vos faz suportar fadigas e privações momentâneas?
Pois bem! O que é esse repouso de alguns dias, perturbado pelas
enfermidades do corpo, ao lado daquele que espera o homem de bem?
Não vale a pena fazer algum esforço? Sei que muitos dizem que o presente
é positivo e o futuro incerto; portanto, eis aí, precisamente, o pensamento
de que estamos encarregados de destruir em vós, porque desejamos que
compreendais esse futuro de maneira que não possa deixar nenhuma dúvida
na vossa alma. Eis por que chamamos inicialmente vossa atenção
para os fenômenos que impressionavam os vossos sentidos e depois vos
demos as instruções que cada um está encarregado de divulgar. Foi com
esse objetivo que ditamosO Livro dos Espíritos.

920 O homem pode desfrutar na Terra de uma felicidade completa?
– Não, uma vez que a vida lhe foi dada como prova ou expiação; mas
depende dele amenizar esses males e ser tão feliz quanto se pode ser na
Terra.

921 Concebe-se que o homem será feliz na Terra quando a humanidade
estiver transformada. Mas, enquanto isso, cada um pode
garantir para si uma felicidade relativa?
– O homem é quase sempre o agente de sua própria infelicidade. Ao
praticar a lei de Deus, se pouparia dos males e desfrutaria de uma felicidade
tão grande quanto o comporta sua existência grosseira.

922 A felicidade terrena é relativa à posição de cada um; o que
basta à felicidade de um faz a infelicidade de outro. Existe, entretanto,
uma medida de felicidade comum a todos os homens?
– Para a vida material, é a posse do necessário; para a vida moral, a
pureza da consciência e a fé no futuro.

923 O que é supérfluo para uns não se torna necessário para
outros e, reciprocamente, conforme suas posições na sociedade?
– Sim, de acordo com vossas idéias materiais, preconceitos e ambição,
e todos os caprichos ridículos aos quais o futuro fará justiça quando
compreenderdes a verdade. Sem dúvida, aquele que tinha um valor de
cinqüenta mil de renda e que agora só tem dez acredita ser bem infeliz,
porque não pode mais ter uma grande soma, ter o que chama de sua
posição, seus cavalos, criados, satisfazer todas as suas paixões, etc. Acredita
não ter o necessário; mas, francamente, achais que ele tem direito de
se lamentar, quando ao seu lado há quem morre de fome e frio e não tem
um abrigo para repousar a cabeça? O homem sábio, para ser feliz, olha
abaixo de si e nunca acima, a não ser para elevar sua alma ao infinito. (Veja
a questão 715.)

924 Existem males que independem da maneira de agir e que
atingem até o homem mais justo; tem ele algum meio de se preservar
deles?
– Ele deve se resignar e suportá-los sem lamentações, se quiser progredir;
mas sempre possui uma consolação na sua consciência que lhe
dá a esperança de um futuro melhor, se faz o que é preciso para obtê-lo.

925 Por que Deus favorece com os dons da riqueza certos homens
que não parecem merecê-los?
– É um favor que se apresenta aos olhos daqueles que vêem apenas
o presente; mas, sabei bem, a riqueza é uma prova freqüentemente mais
perigosa do que a pobreza. (Veja a questão 814 e seguintes)

926 A civilização, ao criar novas necessidades, não é a fonte de
novas aflições?
– Os males desse mundo ocorrem em razão das necessidades falsas
que criais. Aquele que sabe limitar seus desejos e vê sem inveja o que
está acima de si poupa-se das decepções nessa vida. O mais rico dos
homens é aquele que tem menos necessidades.
Invejais os prazeres daqueles que parecem os mais felizes do mundo;
mas sabeis o que lhes está reservado? Se desfrutam desses prazeres
somente para si, são egoístas, então virá o reverso. De preferência, lastimai-
os. Deus permite algumas vezes que o mau prospere, mas essa
felicidade não é para ser invejada, porque a pagará com lágrimas amargas.
Se o justo é infeliz, é uma prova que lhe será levada em conta, se a
suporta com coragem; lembrai-vos dessas palavras de Jesus: “Felizes os
que sofrem pois serão consolados”.

927 O supérfluo não é certamente indispensável à felicidade, mas
o mesmo não acontece com o necessário. Não é real a infelicidade
daqueles que não têm o necessário?
– O homem só é verdadeiramente infeliz quando sofre com a falta do
que é necessário à vida e à saúde do corpo. Essa carência talvez ocorra
por sua própria culpa; então, deve queixar-se somente de si mesmo. Se for
causada por outros, a responsabilidade recai sobre aquele que a causar.

928 Pela especialidade das aptidões naturais, Deus indica evidentemente
nossa vocação neste mundo. Muitos males não surgem
por não seguirmos essa vocação?
– É verdade, e são freqüentemente os pais que, por orgulho ou vaidade,
fazem seus filhos saírem do caminho traçado pela natureza e, por causa
desse deslocamento, comprometem sua felicidade. Serão responsabilizados
por isso.

928 a Assim, acharíeis justo que um filho de um homem bem
posicionado na sociedade fizesse tamancos, por exemplo, se for essa
sua aptidão?
– Não é preciso cair no absurdo nem exagerar. A civilização tem suas
necessidades. Por que o filho de um homem bem posicionado, como
dizeis, faria tamancos, se pode fazer outra coisa? Ele poderá sempre se
tornar útil na medida de suas aptidões, se não as contrariar. Assim, por
exemplo, em vez de ser um mau advogado, poderia talvez tornar-se um
bom mecânico, etc.

929 Existem pessoas que, sentindo-se carentes de todos os recursos,
mesmo que a abundância reine ao seu redor, têm somente a
morte como perspectiva; nesse caso o que devem fazer? Devem se
deixar morrer de fome?
– Não se deve nunca ter a idéia de se deixar morrer de fome porque
sempre encontrará um meio de se alimentar, se o orgulho não se colocar
entre a necessidade e o trabalho. Diz-se freqüentemente: não há nenhuma
profissão humilhante, nenhum trabalho desonra; diz-se para os outros
e não para si.

930 É evidente que, isento dos preconceitos sociais pelos quais
se deixa dominar, o homem sempre encontrará um trabalho qualquer
que o ajude a viver, mesmo deslocado de sua posição; mas entre as
pessoas que não têm preconceitos ou que os colocam de lado não
existem aquelas que estão na impossibilidade de prover às suas necessidades
em conseqüência de doenças ou outras causas independentes
de sua vontade?
– Numa sociedade organizada de acordo com a lei do Cristo ninguém
deve morrer de fome.